Esta coluna é parte de uma série que discute o futuro da educação com inteligência artificial (IA), baseada em reflexões do livro O Professor Ampliado, a ser lançado na Feira do Livro de Porto Alegre. A cada semana, compartilhamos recortes de capítulos, conectando pesquisas, exemplos e dilemas práticos sobre o tema.

Dois mundos, o mesmo planeta

A disparidade no acesso à tecnologia educacional é gritante.

Em uma extremidade, temos a realidade de Hong Kong, onde estudantes ajustam óculos de realidade aumentada para acompanhar explicações de um Einstein holográfico sobre teoria dos jogos. Ali, a energia é estável, a conexão é veloz, e a IA é uma companheira de aula presente. O futuro já é agora.

Na outra, no coração da Amazônia brasileira, a professora Edna viaja por horas de barco para chegar à lan house mais próxima, onde consegue baixar vídeos pesados de biologia para seus alunos. A precariedade é a regra: gerador a diesel marca o ritmo, e o computador “geme” ao tentar abrir os arquivos. Para Edna e seus alunos, a inteligência artificial é apenas uma sigla distante.

Essas duas cenas, que ocorrem no mesmo dia e no mesmo planeta, revelam uma verdade inconveniente: a IA não é etérea. Ela depende de cabos, antenas e tomadas.

Sem conexão, a IA vira privilégio de poucos

A transformação digital na educação exige um alicerce básico: energia elétrica confiável, internet estável e equipamentos minimamente funcionais. Ignorar essa infraestrutura é condenar a IA educacional a ser um luxo para poucos, perpetuando um novo apartheid tecnológico.

Dados da pesquisa TIC Educação 2023 mostram que, embora mais de das escolas públicas brasileiras tenham algum tipo de conexão, apenas uma parcela delas possui acesso adequado e dispositivos digitais suficientes para uso pedagógico eficaz. A desigualdade é nítida entre regiões e entre as redes pública e privada. Milhares de escolas seguem completamente desconectadas. A promessa de uma “educação inteligente” corre o risco de se tornar apenas uma vitrine de desigualdade social.

Imagens da precariedade que são reais

A gravidade da situação não precisa de ficção. As imagens a seguir, por mais absurdas que pareçam, são reais e mostram que o problema é a falta de alicerces, não a falta de criatividade:

  • No semiárido brasileiro, tablets doados são guardados em freezers desligados, usados como caixas térmicas improvisadas para protegê-los do calor.
  • Em Zanzibar, as aulas de IA só podem acontecer quando o sol alimenta os painéis solares.
  • Na periferia de Daca, Bangladesh, um celular dos anos com tela rachada é um tesouro coletivo, com segundos de espera para carregar cada frase.

Esses exemplos ilustram que a base para que a tecnologia funcione está falhando.

Os riscos invisíveis: vigilância e captura de dados

Quando a infraestrutura de energia e conexão finalmente chega à escola, surge um novo risco, mais sutil e invisível: o da captura e vigilância de dados.

Governança de dados: uma questão política

A governança de dados não é um mero detalhe técnico, mas uma questão profundamente política. Se os sistemas que registram as trajetórias estudantis forem utilizados para controle disciplinar ou para servir a interesses privados, a IA deixa de ser uma ferramenta de emancipação e se transforma em uma engrenagem de vigilância.

Isso não é um receio teórico. Plataformas de monitoramento como a Proctorio já foram alvo de escândalos e ações judiciais por práticas invasivas, como gravar alunos em suas casas e marcar “comportamentos suspeitos”. Na China, algumas escolas chegaram a testar softwares de “detecção de emoções” para tentar avaliar a atenção dos estudantes em sala. Quando a educação entrega seus dados sem uma mediação crítica, corre o risco de transformar carteiras escolares e mesas de estudo em verdadeiras celas digitais.

A decisão política por trás da IA

É fundamental entender que a infraestrutura não é um detalhe técnico, é justiça social aplicada ao cotidiano da escola. A adoção da IA na educação não é um simples upgrade técnico, mas uma decisão política. A escolha está entre implementar tecnologias que libertam ou sistemas digitais que vigiam.

Não basta apenas celebrar os avanços da IA. É preciso encarar a pergunta incômoda: como falar de algoritmos sofisticados se ainda faltam lápis, professores e fios que garantam a conexão básica?

O fio da esperança: IA desplugada no brasil

Em meio aos geradores a diesel e aos tablets em freezers, surge um outro Brasil, capaz de transformar a escassez em laboratório de criação. Pesquisadores e professores de universidades públicas estão desenvolvendo a IA desplugada. Essa abordagem permite usar a inteligência artificial para apoiar alunos e educadores, combatendo as desigualdades mesmo na ausência de internet estável.

A IA desplugada já está presente em muitas escolas, provando que a inovação pode nascer da criatividade pedagógica diante da escassez. O Brasil está ensinando ao mundo que o futuro da educação não depende apenas de cabos e satélites, mas da criatividade pedagógica capaz de transformar a necessidade em aprendizado. Essa será a próxima parada da nossa jornada.

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